Maternidade Líquida

Publicado em 25/11/2016 às 14h33

  MATERNIDADE LÍQUIDA : O PAPEL DAS REDES VIRTUAIS NA CONSTRUÇÃO DA MATERNIDADE

 

 

Tania Novinsky Haberkorn

 

Instituto Gerar – Agosto 2016

 

 

 

 

Através desse artigo proponho uma reflexão sobre as redes virtuais acessadas por mães e como isso se articula com o exercício da maternidade nos dias de hoje. As possibilidades e os limites dessas redes.

 

Como é exercer a função materna no mundo liquido, onde a tradição já não determina o que devemos fazer? Onde tudo é questionável e as escolhas pessoais são validadas desde que você banque as consequências das suas escolhas.

 

Parafraseando Zygmunt Bauman, filósofo polonês que faz uma crítica a nossa cultura de relações virtuais e laços frágeis, faço uma analogia entre a modernidade liquida e a maternidade na modernidade.  Na modernidade liquida os padrões não estão dados, eles são vistos como padrões individuais. Os fluidos movem facilmente, diferente dos sólidos, não são facilmente contidos – contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho. (Bauman, 2000, pg.8).

 

A sociedade hoje nos permite um leque maior de opções de como vamos exercer ou não a maternidade.  No livro O Conflito, Elisabeth Bandinter nos lembra de que antes dos anos 1970, a criança era a consequência natural do casamento. Toda mulher apta a procriar o fazia sem muitas perguntas. A comunidade de certa forma era uma consequência do tornar-se mãe. A mulher ao tornar-se mãe tinha um lugar reconhecido socialmente. Porém, esse lugar não é mais suficiente para definir o papel da mulher.

 

Hoje em dia podemos dizer, com algumas ressalvas,  que a maternidade é uma escolha. Apesar das pressões sociais e familiares não podemos negar que há mais espaços para as escolhas pessoais. Ainda assim a maioria das mulheres opta pela maternidade, mas com mais opções de como e quando vão tornar-se mães. Essa escolha tem um preço alto para a mulher da modernidade. Até que ponto essa criança vai pesar na sua vida profissional e social? Onde ela vai encontrar essa comunidade que sustente sua maternidade?

 

O feminismo tirou as mulheres de casa, colocou no mundo, criou oportunidades e caminhos nunca antes traçados por mulheres. Enfim as mulheres se viram como seres pensantes, desejantes, participativos da vida pública e financeira. Com os avanços da medicina, elas conseguem adiar a maternidade e com isso se solidificar na vida profissional. São mulheres que romperam com muitos valores. Tornaram-se mulheres bem sucedidas, independentes, por vezes solitárias e pouco solidarias com as outras mulheres.

 

Entretanto, a opção da maternidade não desaparece da vida dessas mulheres, mas ao adiarem a maternidade, foram se distanciando do universo materno. Paralelamente, o desejo de ser mãe vai se fortalecendo, vai tomando forma e achando caminhos possíveis numa vida altamente produtiva e competitiva. A maternidade traz essas mulheres de volta para casa, mas agora sem muito preparo, sem o apoio de seus pares e sem comunidade.

 

Temos que reconhecer que vivemos em tempos individualistas e esperamos que as mães deem conta da maternidade sozinhas como davam conta na vida coorporativa.  Essa era a premissa anterior, por que não iria funcionar na maternidade também? No que a maternidade é diferente da vida profissional?

 

Existe mais um agravante para essa mulher-mãe-profissional que se vê em casa as voltas com um bebê e pouquíssimo suporte para dar conta de ser mãe, profissional e mulher. A mesma psicanálise que deu tantas ferramentas para tomada de consciência das mulheres a respeito das implicações sociais e políticas da maternidade, agora é a mesma “que coloca a mulher num lugar central no que tange à conservação das crianças.” (Iaconelli, 2012 pg. 65)

 

A psicanálise reforça que a relação mãe-bebê é fundamental para o desenvolvimento saudável da criança. E ninguém melhor para fazer esse vínculo do que a própria mãe. A mulher volta para casa. Aprende a função materna com afinco. Tem acesso a toda informação possível e disponível. A psicanálise criou o caminho e a encruzilhada para essa mulher.

 

Nas redes sociais essa a mãe é inundada com todo tipo de informação de como criar e educar seu filho. Especialistas de todas as abordagens oferecem todo tipo de ajuda. Todo conhecimento está na ponta dos dedos. Mas a relação não depende exclusivamente da informação. O vínculo se sustenta mais no tempo e no e no contratempo. No suor dos corpos, nas noites mal dormidas, no amor impiedoso, na superação dos dias. Nesses dias mais difíceis surge possibilidade de um encontro com seu bebê e a experiência real que vai permitir a troca com outras mães.

 

Nas redes virtuais essas mães expressam suas dúvidas e suas angústias, suas ambivalências sem máscaras, pedindo e oferecendo ajuda. Alguns temas são recorrentes nos depoimentos dessas mães.

 

 Ambivalência e Culpa:

 

A ambivalência entre a maternidade e a vida profissional é um tema frequente nos posts dessas mães.

 

“Oi meninas preciso de uma ajuda. Eu não faço tratamento  para ddp mas tenho muitos sintomas, mas tô tentando superar. Eu queria muito trabalhar e agora arrumei um emprego e estou super feliz mas com dois corações porque as gêmeas vão ficar na creche das 8 até as 20 hs e todo mundo fala que não vou dar conta do trabalho, da casa e das nenéns. Mas eu preciso muito retomar a minha vida, não aguento mais escutar choro o dia inteiro e elas tão resfriada só choram e qdo uma se acalmam e eu acho que vou descansar a minha cabeça a outra chora e às vezes perco a cabeça e me culpo depois. Será que vou fazer um mal pra elas voltando a trabalhar será que estou sendo egoísta por querer um tempo pra mim?”M.K.

 

Apoio Social e Vínculo

 

Na era pré-internet, as avós, tias e vizinhas eram o principal apoio social das mães de primeira viagem. Hoje, com as famílias menores e o isolamento das grandes metrópoles, muitas mulheres encontram nas redes sociais seu refúgio para as dúvidas, angústias e alegrias da maternidade.

 

Estudos mostram que existe uma correlação direta entre as mães de países com politicas públicas que oferecem benefícios para as famílias com crianças na primeira infância e seu grau de satisfação com a maternidade. O apoio financeiro e social para a mãe da primeira infância é um fator relevante para a experiência positiva da maternidade.

 

No artigo Apoio social e experiência da maternidade, Rapoport e Piccinini (2006) relatam como o benefício do apoio social, a influência do apoio social dado à mãe na sua responsividade para com o bebê e no subseqüente apego deste foi examinado por Crockenberg. Fizeram parte do estudo 46 díades mãe-bebê. A adequação do apoio social mostrou-se claramente associada à segurança do apego. Baixo apoio social esteve associado com elevada resistência e evitação e com apego ansioso, em parte devido à não responsividade materna. Além disso, o apoio social teve maior efeito em bebês irritáveis e suas mães, sugerindo que o apoio social é particularmente crítico quando a família está sob estresse. O comportamento das mães dos bebês com temperamento fácil foi menos afetado pela falta de apoio social, bem como bebês menos irritáveis exibiram reações mais apropriadas às mães não responsivas. A ausência ou baixa responsividade materna esteve associada com apego ansioso somente quando o apoio social foi baixo. Em alguns casos o pai e os avós foram mais responsivos do que as mães aos bebês. Os autores sugeriram que bebês irritáveis e mais solicitantes de seus pais apresentariam risco de dificuldades desenvolvimentais posteriores especialmente se seu ambiente fosse deficiente em atender às suas necessidades.

 

Esses estudos reforçam a ideia de que as mães que recebem apoio social da comunidade e familiares têm maiores chances de estabelecer um vinculo saudável com seus bebês do que as mães que se veem as voltas com a maternidade sem o apoio necessário. Onde as politicas públicas falham e as comunidades são escassas, essas mães precisam criar redes de sustentação que as ajudem a lidar com as demandas da sociedade moderna. A internet possibilitou que essas mães se organizassem e se ajudassem de uma forma inédita.

 

Depressão nas Redes Sociais:

 

Nas redes sociais essas mães vão se organizando também através dos sintomas. O grupo de Depressão Pós-Parto no Facebook tem cerca de 2150 membros e é um lugar de trocas importantes. Por vezes preocupante porque os relatos são intensos e muitas delas não estão ligadas a tratamento médico. Para quem lê os posts fica a dúvida se o desabafo e o suporte virtual do grupo são suficientes em um momento de tanto sofrimento.

 

“Obrigada por terem me aceitado no grupo...Bom queria compartilhar com vcs mais eu nunca fui ao médico então nunca fui diagnosticada com depressão mais tenho uma filha de dois anos e sou mãe solteira sofri muito na gravidez . No parto e até hoje me sinto muito cobrada e tem dias que sinto somente vontade de chorar de sumir sozinha sem ela sem família e muito ruim não tenho muita paciência para brincar pra colocar pra dormir mais a noite me vem tudo pela memória e me sinto uma péssima mãe, pois minha filha é carinhosa e não merecia ser tão deixada de lado assim ps:( eu a amo muito mais e um misto de sentimentos )” LF

 

As redes virtuais vão tomando o lugar das redes reais de antigamente. As mães se viram sozinhas e isoladas com seus bebês e a internet foi uma saída criativa para se encontrarem e unirem forças. Existem grupos para todos os gostos e perfis. Nesses grupos há trocas de todos os tipos e até mães que querem só um espaço para desabafar. É uma maneira de não sentirem que não estão sós e que outras mulheres compartilham dos mesmos dilemas. Essas mães estão inventando uma outra forma de dar e receber ajuda depois da maternidade.

 

“Boa tarde meninas. Gostaria de me colocar aqui à disposição para ajudar de alguma forma alguém que esteja precisando de ajuda e que seja de São Paulo. Tive DDP e sei como é estar no fundo do poço. Posso ajudar com uma conversa, orientar as pessoas próximas, tarde ajudando com o bebê, ajudar arrumar a casa, ou seja, qualquer coisa que seja importante no momento. Estou curada e acho importante criarmos uma rede de apoio à quem está passando por esse momento terrível agora. Obrigada pela oportunidade. Será um prazer ajudar. Força que vai passar!” L.T.

 

A comunidade é a forma que o indivíduo encontra para se apoiar e interagir com pares que também tenham interesses semelhantes. Surge aí o espírito coletivo, uma individualidade compartilhada na forma do “nós”, da divisão de responsabilidade e na potencial força de uma ação coletiva. As ações, responsabilidades e consequências são divididas. Se por um lado a individualidade e insegurança da transitoriedade, fluidez e momentaneidade, o engajamento numa comunidade onde é possível dividir responsabilidades faz com que o indivíduo a entenda como uma ilha tranquila rodeada por um “mar revolto e traiçoeiro”.( Bauman, 2001. Pg 258).

 

O desamparo existencial

 

O conceito de desamparo originário é marca estrutural do sujeito freudiano, somos todos desamparados em vários níveis. As incertezas da vida e da morte nos coloca sempre de frente ao desconhecido e nos remete a nossa fragilidade mais primitiva e falta de controle diante de tantos eventos da vida.

 

O nascimento por sua intensidade e singularidade também pode ser um momento de desorganização, onde a mãe tem que se a ver as dores físicas e psíquicas do parto. Os corpos agora separados, as demandas de um bebê vulnerável e dependente dela pode vir a ser uma situação propicia para retorno ao desamparo primordial. É muito comum as mães se conectarem com a vulnerabilidade do bebê nos primeiros meses de vida e isso é uma condição importante para a sobrevivência do bebê. Alguém que está prestando atenção aos seus sinais vitais e pode identificar com rapidez as suas necessidades básicas. A maternidade por ser um momento de ruptura de identidade tem essa qualidade quase intrínseca.

 

Por mais que o parto ocorra sem grandes traumas existe sempre um luto a ser feito. A mãe precisa reconhecer esse bebê como o seu filho. O bebê que nasce não é o bebê imaginado. Esse bebê é um estranho para sua mãe e todo esse processo de reconhecimento do outro é cheio de pequenos lutos, desde o sexo do bebê que nem sempre condiz com o desejo da mãe até toda a aceitação de uma nova relação que vai transformar a identidade da mulher em mãe.

 

A jornalista Eliane Brum exemplifica muito bem esse desamparo no seu artigo A dor dos Filhos:

 

“Minha filha tinha uns três ou quatro anos e estava sentada no chão tentando brincar. Eu via o seu esforço e via o seu fracasso. Ou talvez apenas estivesse projetando nela o que sabia que seria seu embate mais ou menos eterno. Mas creio que não, acredito que já era angústia o que havia no seu rostinho redondo, já era perplexidade diante da aridez de alguns dias. Lembro-me de que, naquele momento, as lágrimas pingaram dos meus olhos, como de uma torneira mal fechada. Eu soube ali que jamais poderia tapar aquele buraco, que teria de testemunhar para sempre aquela luta íntima na qual cada um de nós está só. Sempre só. Eu assistia a ela desde já, tão pequena, tão frágil, tão confiante no meu poder ilusório, debatendo-se com a vida. E para sempre diante dela eu pingaria como uma torneira mal fechada. Era um momento silencioso entre nós – e as cartas já estavam dadas muito antes de nós.” (Eliane Brum. A dor dos filhos, 2012)

 

O que acontece com as mães que resolvem compartilhar suas experiências reais nas redes sociais?

 

Juliana teve seu perfil bloqueado no Facebook quando postou a seguinte frase: “ Quero deixar bem claro que amo meu filho, mas odeio ser mãe.” o post viralizou e, em pouco mais de um dia, teve quase 80 mil curtidas. Junto com ele, vieram milhares de comentários de apoio e, mas principalmente de recusa à postura da mãe - alguns deles afirmando que a jovem estaria sofrendo de depressão pós-parto.

 

No blog Vegana é a sua Mãe, Julia postou em 2015: “... eu estou aqui para tentar mudar isso. Eu, mãe apaixonada louca pela cria, estou aqui para te dizer: essa romantização é uma mentira. Maternidade é uma responsabilidade pesada. Sim, é apaixonante, visceral e não posso mais ver a minha vida de outra maneira, porém vamos a verdade: tem que querer muito. Não compre a idéia poética de ser mãe. “

 

 Todos que quebram paradigmas têm que lidar com as forças normativas que defendem o status quo.

 

A internet primeiramente parece ser um lugar onde todos podem ter opiniões, mas em se tratando do lugar sagrado da maternidade essa premissa parece ter sido questionada na hora em que essas mães que expõem suas ambivalências são banidas da rede.

 

A modernidade vem desenraizando o individuo da sua família e da sua comunidade há tempos. É certo que sempre tivemos na história da humanidade o desterro do homem.  Antes talvez por consequência de guerras e condições adversas e hoje além das guerras temos as escolhas pessoais e profissionais. A maternidade é o contra ponto desse processo, de alguma forma a maternidade nos abre para outras necessidades e a comunidade e a troca vão se fazendo elementos fundamentais para algumas mães.

 

Como mencionado anteriormente a maternidade dos dias de hoje, tira a mulher de um mundo extremamente produtivo, rápido e dinâmico, para um mundo lento, solitário e pouco previsível. Antes da internet e das redes virtuais as mães se conformavam com essa condição e tiravam o melhor proveito possível dos anos de devoção e solidão.

 

Com a chegada da internet, a nova geração que se torna mãe, já começa a fazer parte das redes sociais e construir comunidades antes mesmo do bebê nascer. Ninguém mais precisa ser mãe sem rede. As redes virtuais vão sustentando as mães nessa busca por uma nova identidade. A busca não precisa mais ser um caminho penoso e solitário.

 

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